domingo, 3 de junho de 2012

 
 
Posted by Claudia Sardinha
 
O conceito do Desenho Universal foi desenvolvido entre os profissionais da área de arquitetura da Universidade da Carolina do Norte – EUA, com objetivo de definir um projeto de produtos e ambientes que pudessem ser usados por todos, na sua máxima extensão possível, sem necessidade de adaptação ou projeto especializado para pessoas com deficiência.

A meta era que qualquer ambiente ou produto poderia ser alcançado, manipulado e usado, independentemente do tamanho do corpo do indivíduo, sua postura ou mobilidade.



Mas o Desenho Universal não é uma tecnologia direcionada apenas aos que dele necessitam. É voltado para todas as pessoas!



A ideia é assegurar que todos possam utilizar com igual segurança e autonomia espaços construídos e objetos. Para isso, alguns conceitos foram criados:

1- Equiparação nas possibilidades de uso
É útil e comercializável às pessoas com habilidades diferenciadas.

2- Flexibilidade no uso
Atende a uma ampla gama de indivíduos, preferências e habilidades.

3- Uso Simples e intuitivo
É de fácil compreensão, independentemente de experiência, nível de formação, conhecimento do idioma ou da capacidade de concentração do usuário.

4- Captação da informação
Comunica de forma clara as informações necessárias, independentemente de sua capacidade sensorial ou de condições ambientais, atendendo as necessidades do receptor, seja ele uma pessoa estrangeira, com dificuldade de visão, audição, etc.

5- Tolerância ao erro
Previsto para minimizar os riscos e possíveis consequências de ações acidentais ou não intencionais.

6- Mínimo esforço físico
Pode ser utilizado com um mínimo de esforço, de forma eficiente e confortável.

7- Dimensão e espaço para uso e interação
Oferece espaços e dimensões apropriados para interação, alcance, manipulação e uso, independentemente do tamanho do corpo (obesos, anões etc.), da postura ou mobilidade do usuário (pessoas em cadeira de rodas, com carrinhos de bebê, bengalas etc.).

E a informática não fica fora disso. Temos produtos acessíveis e símbolos que se tornaram comuns a cada dia.

Teclados com letras maiores e com um acrílico protetor das teclas chamado colméia

Mouses especiais

Em termos de produtos voltados para o acesso de todos, temos também uma mesa super interessante do grupo Dumont Brasil, que apareceu na novela Viver a Vida.

Novela Viver a Vida. Desenho Universal para Informática. No ar dia 23.02.2010

Agora, falando sobre os símbolos universais na informática (e agora isso é um pitaco meu, pois não vi lugar algum oficializando essa informação), temos a utilização de uma simbologia internacional e de, certo modo, fácil identificação.

Digo “de certo modo”, pois só quem está familiarizado com os mesmos é quem faz uso de equipamentos eletrônicos.

Abaixo vou citar alguns exemplos de símbolos que são usados no mundo todo e que acredito que podem ser considerados desenho universal.

Claro que não sou especialista no assunto para avaliar se os mesmos se encontram dentro das 7 premissas citadas acima (eu acho que não exatamente, rs), mas estes símbolos se tornaram padrão nos eletrônicos. E uma vez aprendido seu significado, pode-se utilizar esse conhecimento para os demais equipamentos.

São eles:

Botão de ligar e desligar
Este símbolo é da época da Segunda Guerra Mundial, quando os engenheiros etiquetavam os botões seguindo o sistema binário: 1 significava “ligado”, e 0 significava “desligado”. Tempos depois, o Institute of Electrical and Electronic Engineers alterou a definição para significar simplesmente energia, força – Power.



Símbolo do USB

O ícone foi desenhado de modo a lembrar o tridente de Netuno. No lugar de triângulos nas três pontas da lança, os promotores do USB decidiram alterar os formatos para um triângulo, uma caixa e um círculo. Isso foi feito para significar todos os diferentes periféricos que poderiam ser conectados usando o novo padrão.



Botão play e pause

Os símbolos de Play (tocar) e Pause (parar) não são nativos dos computadores, mas aparecem em todas as interfaces dedicadas a reproduzir áudio ou vídeo. Infelizmente, nem o triângulo apontado para a direita, nem as duas barrinhas parecem ter uma origem definitiva. Eles primeiro apareceram como símbolos de transporte de fitas em tocadores de rolos na metade dos anos 60. Em alguns casos, vinham acompanhados dos símbolos de avanço ou retrocesso rápido, que eram o mesmo triângulo, apenas duplicado e eventualmente invertido para apontar para a esquerda. A direção do triângulo indicava a direção que a fita iria se mover.



Símbolo de rede

Apesar de ter sido “inventado” muitos anos antes, isso que hoje reconhecemos como um símbolo de conexão em rede Ethernet foi projetado por David Hill, da IBM. Segundo ele, o símbolo era parte de um conjunto de outros símbolos que representavam as várias conexões de rede local disponíveis na época. As caixas, que são representadas de maneira propositalmente não-hierárquica, representam os computadores/terminais.



Símbolo de conexão bluetooth

O símbolo do bluetooth é uma junção das duas runas que representavam as iniciais do rei Harald Blatand, da Dinamarca, que era conhecido como Harald Bluetooth. Ele recebeu esse apelido por ele possuir uma coloração azulada em seus dentes.

O primeiro receptor Bluetooth tinha o formato parecido com o de um dente mesmo, e sim, era azul. Mas as brincadeiras simbológicas não param por aí. Sabe-se também que Harald foi instrumental para a união de diferentes facções guerreiras em partes do que hoje são a Noruega, Suécia e Dinamarca – do mesmo modo que a tecnologia Bluetooth é projetada para permitir colaboração entre diferentes indústrias, como a de computação, telefonia celular e automotiva.



Símbolo de stand-by

As pessoas ficavam confusas com o modo “standby”. Então a IEEE (lê-se I 3 E – Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos) decidiu que seria bom fazer uma modificação, renomeando o modo de espera para “Sleep” (dormir), de modo a demonstrar o estado em que nós, humanos, não estamos nem ligados, nem desligados. Atualmente, uma lua crescente é o símbolo do modo Sleep nas Américas e na Europa.



Símbolo arroba

Como este símbolo acabou se tornando tão potente com o passar dos anos, não é? Porém, ele é conhecido por nomes diferentes ao redor do mundo: caracol na França e Itália, ratinho na China, rabo de macaco na Alemanha, tromba de elefante na Suécia, arroba no Brasil. O símbolo já fazia parte de algumas máquinas de escrever americanas, sendo usado em contabilidade desde 1885 como uma abreviatura da área de contabilidade, que significava “na ordem de”. No Brasil, o termo arroba já vinha sido usada no contexto mercantil, principalmente como unidade de peso de gado, equivalendo a cerca de 15kg. Mas o símbolo em si, o “a” com uma voltinha externa, tem origens misteriosas e muito mais antigas que isso, remetendo a monges do século 6 (mistéeeeriiiiiio… rs).

Bom, agora que vocês já têm uma noção do que é desenho universal, quero deixar uma dica de um blog bem bacana. É o Bengala Legal, criado pelo carioca Marco Antonio de Queiroz (MAQ) que é cego desde os 21 anos devido a diabetes e hoje, aos 50, já criou um blog, trabalhou numa grande empresa de Processamento de Dados do Governo, casou, virou pai, escreveu um livro e plantou um pé de feijão. :)

Abraço a todos e bom fim-de-semana,
Claudia Sardinha

Fontes: Gizmodo, Acessibilidade Brasil

sábado, 2 de junho de 2012

Ricardo Bandeira de Mello, Advogado

“QUAL A LEI QUE GARANTE O DIREITO AO DISLEXICO DE FAZER PROVA ORAL?”
A legislação brasileira atual não possui regras específicas para os disléxicos, não havendo, portanto, uma lei em particular garantindo ao disléxico o direito de fazer prova oral, ter um tempo maior para realização de provas ou de que ele não possa ser reprovado.

O que existe são várias leis que, apreciadas em conjunto, possibilitam defender os direitos dos educandos com necessidades especiais, como são considerados os disléxicos.

Aproveita-se para observar que a avaliação de dislexia deve ser realizada através de uma equipe multidisciplinar (psicóloga, fonoaudióloga e psicopedagoga clínica, pelo menos), visto ser a dislexia uma avaliação de exclusão de outras possíveis comorbidades.

Para defender os direitos dos disléxicos é necessário observar a Constituição Federal (art. 208), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei_nº_9.394) (art. 4º), a Resolução_CNE/CEB_nº02 de 11 de dezembro de 2001 (art. 3º, 5º e 8º), o Estatuto da Criança e do Adolescente (arts. 53 e 54), além de outros artigos dessas leis e de outros documentos legais venham a existir, sendo estes os básicos.

Também auxilia nesta questão a Lei Estadual n.º12.524, de 2 de janeiro de 2007, que dispõe sobre a criação do Programa Estadual para Identificação e Tratamento da Dislexia na Rede Oficial de Educação. Esta lei foi aprovada, mas ainda não foi regulamentada, o que impede a sua aplicação.

Os pais podem ainda procurar a Diretoria Regional de Ensino responsável pela escola onde se encontra matriculada a criança disléxica, e, se assim entenderem necessário, efetuar uma queixa contra a escola que não está cumprindo com a sua obrigação de efetuar a inclusão desse educando com necessidades especiais.

São as considerações básicas a serem observadas, de forma genérica, devendo cada caso individual ser analisado para buscar a solução mais adequada. Ricardo Bandeira de Mello, Advogado
Tel./Fax: 00 55 11 3151-3927
Artigo

DISLEXIA: DIÁLOGO ENTRE DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO PSICOPEDAGÓGICO
por Áurea Maria Stavale Gonçalves (*)

É muito frequente ouvirmos de pais, ou até mesmo de profissionais, comentários de que são contra diagnóstico, avaliação ou mesmo testes, pois tudo isso só serve para rotular seus filhos, pacientes ou alunos.

Lançar outro olhar sobre a questão é necessário, porque sabemos que rotulados eles já estão. Se não soubermos o que ocorre com a criança (ou jovem), como poderemos ajudá-la a aprender da melhor forma? Ou - o que é ainda mais importante - ajudá-la a aprender da forma que lhe é possível? Com tantos avanços das neurociências,não é mais época de ficarmos tentando acertar por ensaio e erro.

É nesse sentido que a avaliação neuropsicológica e avaliação multidisciplinar (neuropsicológica, psicopedagógica e fonoaudiológica) realizada pela ABD - para o diagnóstico da dislexia - é essencial e faz a diferença para a aprendizagem e desenvolvimento dessa criança.

Considerarei aqui o papel do diagnóstico do disléxico, principalmente em relação a ele mesmo. Na realidade, sabemos que há muitas implicações para a escola, meio social, enfim para a vida (fica para uma próxima reflexão).

A nossa experiência nos permite afirmar que após a criança receber a informação de que é disléxica e entender o real significado disso, sente um grande alívio. Afinal, ela compreende que não é “culpada” dessa dificuldade, nem é burra ou outra hipótese terrível fantasiada por ela. Começa, assim, a tirar o peso que esmagava sua auto-estima. Recordo-me inclusive de uma frase de uma criança de nove anos: “Tia, você tirou o mundo das minhas costas.”

O próximo passo será o acompanhamento. No caso do atendimento psicopedagógico, surgem dúvidas: será que isso adianta mesmo? Alguns pais se reconhecem na dificuldade dos filhos e argumentam que “se viraram” sozinhos. Vale perguntar: a que custo emocional?

E quais são os objetivos do atendimento? Em linhas gerais o portador de dislexia aprenderá a organizar-se em relação às atividades escolares, perceber-se como agente de seu processo de aprendizagem; aprender o como fazer, como estudar, resumir, resolução de problemas e estratégias de estudo. A estruturação do trabalho baseia-se naquilo que foi apontado na avaliação, habilidades e dificuldades. Essas serão abordadas de forma sistemática e contínua com o uso dos mais diferentes recursos. As funções cognitivas de atenção e memória também devem ser enfatizadas. Além disso, é feito um trabalho para percepção de competências visando melhorar a auto-estima e segurança em relação às atividades escolares, propiciando, assim, melhor vínculo com a escola e o aprender.

Usarei para explicar o significado do atendimento psicopedagógico ao disléxico uma paráfrase da simbologia do milho da pipoca, citada por Rubem Alves em seu livro “O amor que acende a lua”: “A pipoca é um milho mirrado , subdesenvolvido que, para alguém que não conheça, parecerá que não pode competir com os grãos normais, graúdos. No entanto, aqueles grãos duros, quebra-dentes, após passarem pelo poder do fogo, transformam-se em pipoca macia”.

O milho da pipoca não é o que deve ser: apenas aquele grão fechado em sua casca dura. Na verdade, ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro, de uma beleza de flor, estourando alegria e pipocando para a vida.

Vamos, pois eliminar o rótulo de preguiçoso, burro e vagabundo de nossas crianças e favorecer, no calor do atendimento psicopedagógico, a transformação daquele milho duro e feio, na pipoca macia, em flor.

SP,27 Abril/12

(*) Áurea Maria Stavale Gonçalves, Neuropsicóloga, Psicopedagoga Clínica
Membro do CAE - Centro e Avaliação e Encaminhamento da Associação Brasileira de Dislexia- ABD.
aurea.stavale@dislexia.org.br

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Construção da escrita: primeiros passos - parte 4

JOGO DA MEMÓRIA COM DADO

CAÇA PALAVRA RECICLADO


A Perda da Visão na Adolescência e na Idade Adulta.

Ana Maria Medeiros.

A pessoa que perde a visão quando jovem ou adulta, se, por um lado, "já viu o que havia para ver no mundo", como diz o povo, por outro, tem de defrontar-se com o trauma psicológico da perda. Pelos casos que conhecemos, o processo de superação depende muito da atitude pessoal, da situação sócio econômica, cultural e familiar, mas aconselha-se que essas pessoas sejam alvo de acompanhamento psicológico, bem como as suas famílias.

É natural que a pessoa sinta que o seu mundo ruiu ao cegar. As bases em que ele se sustentava deixarão de existir. Realizar tarefas quotidianas em casa, andar na rua, dirigir-se para a escola ou emprego, entre outras, deixará de ser possível antes de se ter iniciado um processo de reabilitação.

As famílias, que tantas vezes se sentem indefesas perante a adversidade, respondem de forma desajustada, compreensivelmente. As duas respostas familiares mais comuns são o abandono ou a super proteção. A ajuda deverá vir tanto dos serviços de saúde, como da escola, no caso de crianças e jovens, implementando programas sempre no sentido de considerar que o indivíduo é um todo e que a sua reeducação objetivamente procurará que os seus níveis de participação na vida familiar e social sejam, quanto possível, repostos.

Os profissionais de saúde e os professores não devem esquecer que as perdas que a cegueira traz são muitas. Segundo Carrol (1968), podem ser sistematizadas da seguinte forma: perdas emocionais, perdas das competências básicas, perdas na consideração pessoal, perdas relacionadas à ocupação profissional, perdas na comunicação e perdas que implicam a personalidade como um todo.

As perdas emocionais caracterizam-se pela fragmentação da auto imagem e perda da auto estima . O indivíduo, que tinha a sua vida centrada no sentido da visão, deixa de poder sentir-se como uma pessoa completa, considerando-se, pela diferença física, alguém inferior, alguém que não é o que era e que surge diferente dos outros que o rodeiam. O peso do que lhe sucedeu assume tais proporções que pode ficar psicologicamente instável. Tarefas simples do quotidiano, como olhar-se ao espelho, escolher uma peça de roupa ou cumprimentar um amigo à distância, tornam-se impossíveis e geram situações de afastamento, de necessidade de ajuda e de angústia.

Se cada um tem uma auto imagem, independentemente de ser real ou não, ao cegar o indivíduo a perde. Sente que é outra pessoa e que dificilmente voltará a ser alguém que interesse aos outros.

A sua relação com os outros e com a cegueira dependerá também da forma como via os cegos enquanto conservava a sua visão. Se a sua percepção dos cegos valorizava fatores como a mendicidade, a pobreza e a dependência, naturalmente que não acreditará com a mesma convicção na sua reabilitação. Se, por outro lado, associava cegos a artistas, a pessoas que enfrentavam a vida corajosamente, a sua posição face ao futuro, ao cegar, não será desesperada.

A pessoa que cega repentinamente perde as competências básicas. Não se saberá vestir, não será capaz de se alimentar, de se locomover, de se desviar de obstáculos, de se apresentar de forma socialmente aceitável... Terá imensas dificuldades em orientar-se, em fazer opções em termos espaciais, como escolher pontos de referência. A cegueira repentina como que imobiliza o indivíduo que a experimenta. Sentidos como o olfato e paladar, antes tão negligenciados, tornam-se lentamente muitíssimo importantes, o mesmo sucedendo com a audição e com o tato. Enquanto o sentido da visão não for substituído pelos outros, o cego sente-se como que perdido no mundo e sujeito a um constante sentimento de pânico, temendo sempre pela sua segurança, seja no meio familiar ou no espaço exterior.

A não realização de competências básicas, por um lado, levam-no a considerar-se como alguém agora incapaz de ser reconhecido pelo que fazia quando via; por outro, tornou-se alguém completamente dependente de familiares ou de amigos, o que veio romper antigos equilíbrios que norteavam a sua vida.

Incapaz de realizar as tarefas comuns do dia-a-dia, tornando-se dependente, o cego perde a sua liberdade, a sua intimidade, a sua posição no seio familiar e muito daquilo que o unia aos outros. O mesmo se pode dizer que sucede com as competências relacionadas com a ocupação profissional. Não podendo trabalhar, de repente vê-se sem mais um traço da sua identidade, que é a sua profissão. Perde também os colegas de trabalho, as vivências que uma profissão traz ao dia-a-dia de quem trabalha, a interrupção de uma carreira, a degradação da sua situação econômica e a esperança em relação ao futuro... Se ainda é estudante, o seu desempenho acadêmico fica em risco e muitas vezes o abandono da escola ou universidade é a resposta ao que sente.

As perdas relacionadas com a comunicação são relevantíssimas. A perda de visão impedirá a leitura, antes tão natural,  bem como a observação de obras de arte, a assistência de espetáculos, seja presencialmente seja através da televisão. Se se trata de alguém que gostava de ler, de ver exposições de pintura e de assistir a espetáculos de cinema ou teatro, sentirá que a sua perda é enorme.

Faltar-lhe-á um conjunto de pontos de identificação com o mundo, pontos que antes encontrava em livros, jornais, em publicações relacionadas com a sua área profissional... Além disso, não podendo consultar os seus extratos bancários, ler as faturas da água, eletricidade e telefone..., verifica que a sua vida privada é vasculhada por terceiros, o que lhe causará angústia.

Apesar de existirem respostas de tipo tecnológico para muitos dos problemas aqui apresentados, não podemos esquecer que a cegueira afeta o indivíduo como um todo e que a resposta a esta situação varia com os indivíduos. Há os que reagem e superam, reorganizando a sua vida, mas há muitos outros que se vitimizam, assumindo-se como "coitadinhos", como merecedores de pena, nada preocupados em crescer como pessoas.

Por considerarmos que a cegueira repentina afeta a vida completa de uma pessoa, concordamos com Bruno e Mota (2001, p. 144) quando escrevem que: "...é ingênuo considerar que a cegueira é uma deficiência que atinge somente a visão. Ela pode abalar seriamente a estrutura psíquica de quem venha a adquiri-la".

Conhecedoras dos contornos do problema da perda de visão, as pessoas que rodeiam o cego recente devem reagir o mais naturalmente possível. Não faltar com a ajuda quando necessária, mas evitar a comiseração e a piedade que melindram quem é alvo delas.

Não é, contudo, possível esquecer as vicissitudes da nova condição. As pessoas devem compreender que aquele que cegou se torna uma pessoa diferente e que perdeu a sua privacidade. É agora alguém marcado, alguém que perdeu o seu antigo anonimato. Por isso, pede-se a quem o rodeia que nem o subestime, nem o valorize sem razão.



Muitos cegos recentes, ao verem que ganham notoriedade, tentam dar o passo para a frente sem resolver os problemas básicos da vida. Tornam-se extremamente dependentes, embora pareçam apresentar uma autonomia e uma participação social merecedoras de louvor. Ao contrário desta pessoa, é comum também surgir o cego recente que, como perdeu o sentido que o ligava ao mundo, como não pode apreciar a natureza, o que é belo, isola-se e corta os laços com o meio exterior.

Os técnicos de reabilitação devem estar atentos a estas situações e perceber o que está em jogo para buscarem o equilíbrio, trabalhando em conjunto com a família e, se possível, com a comunidade.

O mesmo se espera da escola. Pede-se-lhe que não permita que haja rupturas na vida acadêmica dos alunos que cegaram recentemente. Como na maior parte dos casos a cegueira não é repentina, antes a perda da visão é lenta e gradual, a prevenção deve ser uma prioridade para professores e outros técnicos.

Por outro lado, é preciso determinar quando deverá ter início a aprendizagem do sistema Braille. Como escreve Correia (2008), "...a transição para o sistema Braille deverá fazer-se sem saltos, não sendo necessário interromper os estudos. Hoje estão disponíveis um conjunto de meios tecnológicos que configuram alternativas válidas para que os alunos consigam dominar o Braille gradualmente e de forma tão cômoda quanto possível, até o tornarem no seu meio natural de escrita e leitura."




Muito dificilmente uma pessoa normovisual compreende e consegue experienciar o que é ser cego. É ilusão julgar que fechar os olhos, realizar tarefas na escuridão ou deixar-se guiar por outrem, resumem o que é ser cego (Martins, 2006). Para este autor, a dificuldade de um normovisual perceber o que é ser cego e, consequentemente a sua integração na sociedade, está ligada aos preconceitos profundamente arraigados na nossa cultura. Podemos encontrá-los na Bíblia e na mitologia, através da figura de Tirésias.

Por um lado, ser cego, como são os cegos que surgem nas nossas aldeias, vilas e cidades, não é apenas não ver. Trata-se de pessoas que adquiriram um conjunto de competências que lhes permite enfrentar o quotidiano em segurança, com comodidade e de forma profícua. Por outro, a pessoa cega não é apenas a sua cegueira, mas alguém que tem uma vida como qualquer outro ser humano.

Para a pessoa de visão normal é quase impossível imaginar-se sem o seu sentido primordial, colocar-se na posição do cego que se cruza consigo na rua, compreender determinadas atitudes que o vê tomar. Muitas vezes o que é natural para um cego não o é para um normovisual. Quantas vezes é um cego agarrado por diversas mãos ao descer de um comboio, mas logo abandonado na plataforma da estação? Que dizer deste comportamento se considerarmos que ele precisaria, em vez da ajuda para descer da carruagem, da informação da localização das escadas mais próximas para se poder dirigir para a saída? Este exemplo de incompreensão é bem claro e percebe-se que pode conduzir a pequenos desentendimentos. Naturalmente será mal visto o cego que recuse uma ajuda para descer do comboio, considerada necessária pelos que o rodeiam. Muitos casos de agressividade por parte as pessoas com deficiência resulta de situações como a que descrevemos.

Os cegos ainda hoje são considerados seres exóticos por muitos que com eles se cruzam. A sua cegueira avulta como característica primordial. Os cegos são olhados como uma comunidade, como um todo e não como pessoas isoladas e quantas vezes sem relação alguma com outros cegos que vivem na mesma rua ou bairro.

Os cegos, na opinião popular, são todos inteligentes e lindos (Correia, 1995). O anedotário pinta-nos um cego, umas vezes, ladino, bizarro e malvado, mas, outras, infeliz e humilhado. As artes dão também um contributo para esta visão estereotipada do cego. A literatura e o cinema estão cheios de exemplos em que cegos são descritos de uma forma difícil de aceitar por um espírito esclarecido. Prova disso é o que sucede em O Rosário (Barclay, 1970), em que o protagonista perde a visão e a sua enfermeira coloca cordas para ligar o piano à poltrona para que ele se possa deslocar com comodidade. Outro exemplo caricato aparece em O Milagre (Wallace, 1984), em que a personagem cega conta os passos para se deslocar quer em casa quer na rua. Também esta personagem sofreu a perda da visão e acredita poder ser curada por um milagre de Nossa Senhora de Lurdes.

Há a tendência para julgar que os deficientes visuais apresentam as mesmas características pessoais. Refletindo sobre o assunto, Delgado Cobo, Gutierrez Rodriguez e Toro Bueno (2003, p. 119) escrevem que: "Podemos afirmar que não encontramos elementos que nos permitam falar na existência de uma personalidade do cego", acrescentando que, embora se possam observar alguns traços e tendências, muitos cegos não possuem a maior parte deles.



Bibliografia.

Ana Maria Medeiros - Instituto de S. Manuel - Porto.

·         BARCLAY, Florence, O Rosário, Lisboa, Editorial Minerva, 1970.

·         BRUNO, Marilda Moraes Garcia e MOTA, Maria Glória Batista da, Deficiência Visual, Série Atualidades Pedagógicas, Brasília, Ministério da Educação/Secretaria de Educação Especial, 2001.

·         CARROL, Thomas G., Cegueira: O Que Ela É, O Que Ela Faz e Como Viver Com Ela, S. Paulo, Ministério da Educação e Cultura, 1968.

·         CORREIA, Fernando Jorge A., "Os Cegos Perante a Opinião Pública", Actas do 1º Congresso da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, Lisboa, Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, 1995.

·         CORREIA, Fernando Jorge A., "O Futuro do Jovem Cego de Hoje", Conferência Proferida no 1º Congresso Ibérico de Educação Especial: Percursos e Percalços, Santa Casa da Misericórdia do Porto/ Universidade Lusíada, Dezembro, 2008

·         DELGADO COBO, A; GUTIERREZ RODRÍGUEZ, M. e TORO BUENO, S., "Personalidade e Auto-imagem do Cego", Manuel Bueno Martín e Salvador Toro Bueno (coords.), DEFICIÊNCIA VISUAL - Aspectos Psicoevolutivos e Educativos, Santos, Livraria Editora, 2003, pp. 117-128.

·         MARTINS, Bruno Sena, "E Se Eu Fosse Cego?": Narrativas Silenciadas da Deficiência, Porto, Edições Afrontamento, 2006.

·         WALLACE, Irving, O Milagre, Lisboa, Livros do Brasil, 1984.